Educação, escola e família: proteger o valor do esforço e da dedicação

Mario Sergio Cortella

Estamos desformando e deformando uma geração com a ausência de cuidado. Não podemos confundir a ideia de que vida saudável é uma vida sem regra. Ela é, sim, uma vida sem opressão. E uma convivência regrada oferece a possibilidade de ausência de opressão, não o contrário.

Hoje, é comum conversar com um menino na faixa de 15, 16 anos e ele dizer:

-Eu não quero fazer faculdade. Para quê? Mark Zuckerberg, do Facebook, não terminou faculdade. Nem o Bill Gates, que é o homem mais rico do mundo. O Steve Jobs também não concluiu.

Nessas ocasiões, é preciso chamar o garoto:

-É verdade. Mark Zuckerberg e Bill Gates não terminaram faculdade. Mas, repare, Zuckerberg largou Harvard, não foi uma “Uniesquina” qualquer. Bill Gates largou Harvard e no quarto ano de Direito e de Matemática, ele fazia dois cursos superiores. Bill Gates, quando tinha 17 anos, fez o SAT (Scholastic Aptitude Test ou Scholastic Assessment Test, em tradução livre, Teste de Aptidão Escolar), que é uma espécie de Enem norte-americano, que tem o limite máximo de 1600 pontos somando as duas fases principais. Bill Gates fez 1590. Ele não era um vagabundo que passava o dia fumando maconha na Califórnia. Ele estudava, é um dos cinco norte-americanos que chegaram perto da totalidade de pontos no SAT. Steve Jobs estudava caligrafia, não é à toa que a gente se encanta com alguns produtos da Apple, porque é uma marca liga- da à ideia de design.

Ou então o garoto chega dizendo que queria ser que nem o Mick Jagger, com mais de 70 anos de idade, pulando para lá e para cá. Mick Jagger é formado em Economia pela London School of Economics. Ele não é um vagal. Mick Jagger e Keith Richards têm uma ideia clássica chamada esforço. Depois de 50 anos de banda, eles decidiram fazer uma turnê mundial e ensaiaram oito horas por dia durante um mês. Por que dois caras que tocam juntos há meio século ensaiam tanto tempo? Porque eles não acham que é uma coisa divina, que alguém chegou e falou: “Vocês vão tocar bem”. Tem esforço.

E, para nós, o menino nem sequer lava a louça. Pode-se perguntar se há algum indicador técnico para isso? Sim, o Brasil é um dos três países do mundo que mais consomem produtos digitais, a tal ponto que há mais celulares do que o número de habitantes. Mas somos apenas o 31º país na posse de máquinas de lavar louça. Por quê? Porque tem alguém que lava.

(....)

**Trecho retirado do livro "Educação, convivência e ética".

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