Educação e fraternidade sincera: onde está teu irmão?

Mario Sergio Cortella

A questão ética é tão decisiva que, mesmo que alguém fosse viver sozinho em algum lugar, levaria os próprios conceitos.

No filme Náufrago (EUA, 2000, Robert Zemeckis, 143 min), o personagem interpretado por Tom Hanks, antes de sofrer um acidente e chegar a uma ilha deserta, havia vivido em sociedade, onde ganhou valores de convivência. Tanto que, quando se encontra solitário na ilha, ele estabelece uma “outridade” com uma bola de vôlei, à qual nomeia Wilson, e passa a se relacionar com outra subjetividade. Ele atribui vontade à bola, dialoga, discute, briga com ela. O homem ilhado se relaciona de modo ético com a bola, a tal ponto que ele consegue superar as adversidades sem desespero. Só há um momento em que ele sai do prumo: quando perde Wilson. Ao fazer a jangada, ele amarra Wilson num pequeno cipó e vai embora mar adentro. No momento em que Wilson se desprende, por mais maluco que possa parecer, ele solta um grito primal. É quando ele desagrega. E arrisca a própria vida para resgatar Wilson. Ele pula na água e, ao não conseguir trazer Wilson de volta, entra em desespero. O que é Wilson senão uma marca de bola? Nada. Para o protagonista do filme, no entanto, significava muito.

No Ocidente, de maneira geral (a ética não é igual em todos os lugares), há um princípio da nossa formação judaico-cristã de não abandonar um companheiro ferido. Com o mesmo Tom Hanks, no filme Forrest Gump (EUA, 1994, Robert Zemeckis, 142 min), uma das cenas mais emocionantes, em termos éticos, é aquela em que ele vai e volta dentro da mata, durante a Guerra do Vietnã, para resgatar os colegas que ficaram feridos. É uma impossibilidade, mas isso pouco importa para o personagem. O mesmo princípio se dá quando ele promete ao tenente que um dia vai oferecer o comando do barco, mesmo que o tenente tenha preferido morrer a ficar sem as pernas. É a conduta de não deixar o companheiro ferido para trás.

A ética é sempre na relação. A vida é condomínio. “Viver junto”, em indo-europeu, é greg, que significa “rebanho”. Nós somos um animal gregário, por isso vivemos agregados. Há situações em que segregamos, mas em boa parte do tempo nós congregamos, no sentido de vivermos juntos. Isso significa que temos a necessidade de estruturar a nossa convivência, e ela está ligada à ideia de liberdade. Se eu sou livre, você é livre e a outra pessoa é livre, como concertamos essas liberdades de maneira a não produzir ruptura da vida? É preciso entender que as pessoas não nascem prontas para esse condomínio, elas precisam ser orientadas a um tipo de formação.

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Trecho retirado do livro "Educação, convivência e ética".

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